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quarta-feira, 3 de setembro de 2025

A Bíblia e a Literatura

 O tema - Lendo a Bíblia como Literatura - presente nos "auxílios" da Bíblia de Estudos NAA, pg. 2454, chamou-me a atenção, pesquisei pelo autor e conheci algumas de suas obras.

Se há uma coisa que a Bíblia não é, afirma Leland Ryken, PhD, University of Oregon, "é um esboço teológico com provas textuais anexadas". E considerando que Bíblia é um livro misto - escritos literários e não literários (expositivos) existem lado a lado, ela (também) deve ser lida no sentido literário - exposto a seguir - e não apenas interpretada. Suas verdades estão incrustadas como joias nos estratos ricos de histórias e poesia, metáfora e provérbio, parábola e letra, sátira e simbolismo.

Quando pediram para Jesus definir o próximo, ele contou uma história (Lc10.25-27). Em vez de definir o próximo de maneira abstrata ou proposicional, Jesus preferiu nos contar uma história que o personifica, isso sugere, desde o princípio, aquilo que é mais importante sobre literatura: o seu assunto é a experiência humana e não as ideias abstratas. A narrativa é contada com riquíssimo talento literário. Ela segue o princípio da tripla repetição: certo acontecimento ocorre três vezes (três personagens se deparam com o viajante atacado por ladrões) com uma mudança significativa na terceira vez, o uso hábil de uma técnica literária realça de modo muito mais nítido a boa ação do samaritano ao compará-la com a indiferença do sacerdote e do levita.

O conhecimento ou a verdade que a literatura nos traz é uma percepção de realidade ou da verdade como ela realmente é vivenciada.

De fato, Nosso Senhor também apontou para a vivencia experiencial ao responder a discípulos de João Batista quando estes lhe indagaram se Ele era realmente Aquele que havia de vir: Lucas 7:22 "Ide e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho." Lucas 7:22, ou seja, Jesus declara que a resposta que deverão levar não é apenas um breve "sim" mas uma precisa descrição da realidade que vivenciaram. Ainda, quando foi mais breve ao revelar-se para a Samaritana: "Eu sou o Messias" concluiu "eu que falo contigo." Jo 4.26

O conhecimento ou a verdade que a literatura nos traz também é uma percepção de realidade ou da verdade como ela realmente é vivenciada. A literatura demonstra a experiência humana em vez de discorrer sobre ela. Ela é personificada e lida com ações, em lugar de apenas conceitos, sua tendência é a de incorporar a experiência humana e não a de formular ideias por meio de proposições intelectuais.

Enfim, segundo o autor, uma perspectiva da Bíbilia como literatura significa que ao lê-la, devemos recriar as experiências, as sensações e os acontecimentos nela retratados. A proposta nos exorta a sermos sensíveis ao seu lado experiencial e dessa forma, resistirmos a tendência de transformar cada uma das passagens do Texto Sagrado em uma proposição teológica, como se fosse unicamente para este fim que a passagem existisse. Afinal, se há uma coisa que a Bíblia não é, reafirma o autor, é um esboço teológico com provas textuais anexadas.



quinta-feira, 7 de julho de 2022

Os Coeficientes Amigos - Dica Preciosa para Redações

Da obra A linguagem usual e a composição de Júlio Nogueira.

Eis-nos face a face com o assunto sobre que temos de discorrer, produzindo uma composição de trinta ou quarenta linhas, no mínimo. O assunto é um desses temas abstratos, que nos parecem áridos, avaros de ideias. Seja:
a “amizade”, por exemplo.

Que dizer sobre a amizade? Como encher tantas linhas, formulando períodos sobre períodos, se as ideias nos escapam, se a imaginação está inerte, se nada encontramos no cérebro que nos pareça digno de ser expresso de forma agradável, e sobretudo, correta? Qual a orientação que devemos seguir versando tal assunto até a conclusão, de maneira que nos desempenhemos dessa tarefa superior às nossas forças?

Agora a resposta, o remédio. Antes de tudo: se o nosso estado de espírito é de perplexidade, se nos domina essa preocupação pungente, esse desânimo de chegar a um resultado satisfatório, o que temos de fazer é – não começar a tarefa imediatamente. 

Em vez de lançar a esmo algumas exclamações, algumas frases inexpressivas sobre o papel, reflitamos, concentremo-nos. Empreguemos uma quarta parte do tempo de que dispomos em pensar, em metodizar o assunto, em dividi-lo nos pontos que ele comporta e em submetê-lo aos coeficientes amigos 
que aqui vamos enumerar e que nos darão mais que a matéria necessária. Esses coeficientes protetores não serão sempre os mesmos nem no mesmo grau para todos os assuntos, mas há-os para tudo. Chamam-se definição, distinção, considerações gerais, antecedentes, tempo, lugar, comentários, narração a propósito do tema (fato conhecido, anedota, fábula...), consequências, discurso direto e outros que o engenho de cada um poderá estremar. Vamos colher aqui o que nos pode servir para o assunto dado – a amizade.

A definição nos dirá ser a amizade um sentimento que consiste em estimar a outrem, querer a sua presença, desejar-lhe todo o bem possível; sentimento que traz um grande encanto à vida. A distinção nos sugere que a amizade pode ser verdadeira ou apenas aparente. Nesta segunda classe estamos a ver os interesseiros, os que se dizem nossos amigos, pensando em obter vantagens e favores, e que, passada essa possibilidade, nos voltam as costas, nem nos reconhecem nos dias difíceis para nós. Por esse caminho virão também outras ideias. As considerações gerais serão no sentido de cada um semear amizade por toda parte, fazer-se estimar por todos, desarmar prevenções que às vezes, sentimos contra certas pessoas em que depois só reconhecemos bons predicados e a quem estendemos francamente a mão de amigo. Citemos a propósito o provérbio que diz: Mais vale amigo na praça que dinheiro na caixa. O Tempo nos poderia servir. É justo considera-lo o cadinho da verdadeira amizade, a qual se perpetua, resistindo aos embates da vida. O lugar nos dirá que a distância não é nociva à verdadeira amizade. Os amigos, ainda que separados, continuam a interessar-se pela sorte recíproca: correspondem-se, trocam notícia de caráter pessoal. 

Podemos recorrer a fatos históricos ou lendários que se apliquem à matéria. Aludamos ao caso de Dâmon e Pítias, que nos dará muitos pares de linhas. Se não o conhecemos, contemos um fato da vida real e, se não nos ocorre nenhum, inventemo-lo! Imaginemos alguém que chega de uma longa viagem, a quem dizem que um seu amigo está morrendo à míngua num casebre dos subúrbios, porque os negócios lhe correram mal e uma moléstia cruel o salteou, quebrando-lhe toda a atividade. Descrevamos o encontro dos dois, as medidas que o recém chegados toma, transferindo para o conforto de sua residência o amigo enfermo: a chamada do médico, a compra de remédios e dieta necessária e, por fim, o restabelecimento do amigo, que vota à atividade da vida em ainda apoiado pelo outro, faz bons negócios e satisfaz os seus compromissos. Imaginemos agora o que aconteceria se não fosse esse ato de amizade.

Procedendo com este método ainda parecerá difícil a tarefa? Decerto que não. A dificuldade primacial estava na produção das ideias, mas os coeficientes amigos nos salvaram. 


Pensando nele, investigando a melhor maneira por que se podem aplicar ao assunto, facílimo será organizar o nosso plano, isto é, o arcabouço, as linhas gerais da nossa composição, antes do que não devemos absolutamente iniciar a tarefa.

Falamos ou escrevemos quando temos alguma coisa que dizer. A ideia surge no cérebro e exterioriza-se pela palavra. No colóquio o apoio ou a contestação dos nossos ouvintes vai despertando novas ideias, que por sua vez, se vão exprimindo. Na linguagem escrita, porém, falta-nos esse estimulante, esse aparelho produtor de novas ideias. O nosso cérebro por si só é que não há de fazer o trabalho. Por isso devemos separar todas as peças da nossa composição e procurar materiais por esses processos, uma vez que não tenhamos o dom de escrever de improviso, o que só é dado a raros indivíduos.


terça-feira, 21 de junho de 2022

A Ilíada de Homero

 Por Wagner

De alguma ilha do mar Egeu, um cego traçava um triste destino a bravos guerreiros, para que assim eles fossem lembrados nas gerações vindouras - o canto excelso dos vales. Cá estamos, alguns milênios depois, tentando entender essa história. 


A  Ilíada de Homero,  O Poema Épico, esses vinte e quatro cantos que fundaram a literatura ocidental dizem respeito a certos acontecimentos ocorridos entre entre 1300 a.C. e 1200 a.C., ao longo de 51 dias no décimo ano do Cerco grego à cidade de Troia, localizada na região a que hoje chamamos Eurásia, mais precisamente na Turquia.


A Ilíada de Homero é parte de um contexto maior -  O Ciclo Épico - conjunto de obras poéticas que tratavam das duas grandes guerras travadas pelos povos Helênicos: a de Tróia e a de Tebas. Dos poemas do Ciclo Épico, apenas dois, A Ilíada e a Odisseia se conservaram intáctos. No entanto, seis pequenos poemas constantes do sumário do manuscrito mais famoso da Ilíada, o Venetus A, por tratarem de fatos anteriores e posteriores à Guerra de Tróia, nos dão uma ideia mais geral deste Ciclo Troiano,  no qual os eventos narrados pela Ilíada estão inseridos.



Os oito poemas do Ciclo Troiano:

1. Cíprias - (Cantos Ciprios) - composto por onze cantos que narravam os antecedentes da Guerra de Troia, desde as queixas de Gaia, a Mãe Terra que suportava a pesada carga de uma superpopulação, passando pela interferência de Eris no casamento de Peleu e Tetis culminando no famoso Julgamento de Paris, até o cerco à Troia. Obra atribuída a Estasino de Chipre. 

2. Ilíada - Formada pelos vinte e quatro cantos decassílabos de Homero nos quais são narrados os eventos referentes a 51 dias do décimo ano da guerra de Tróia, desde a recepção de Crises, por Agamémnon que lhe nega a restituição de sua filha Criseida até os funerais de Heitor, cujo corpo, fora resgatado pelo seu pai, Príamo, rei de Tróia.

3. Etiópida - Composta pelos cinco cantos que descrevem os momentos posteriores à morte de Heitor e a trégua concedida pelos gregos para a realização de seu funeral, cuja autoria é atribuída a Arctino de Mileto. Destaca-se o socorro prestado à Troia pela facção das Amazonas, liderada pela sua rainha Pentesileia, assassinada em batalha pelas mãos de Aquiles. Mêmnon, filho da deusa Éos (Aurora), lidera tropas etíopes e logra uma vitória para os troianos. Aquiles é morto por Páris.

4. Pequena Ilíada – os quatro cantos que a compõem, iniciam a narrativa com os jogos fúnebres em homenagem à Aquiles e a disputa entre Odisseu (Ulisses) e Ájax pelas armas do Pelida (Aquiles), culminando mais tarde na loucura e suicídio de Ájax. Trata ainda da morte de Páris, da breve união entre Deífobo e Helena até a reviravolta na narrativa iniciada pelos indícios de uma aliança em prol da queda dos Troianos firmada entre Odisseu e Helena.

5. Iliupérsis – (ou A Destruição de Tróia) refere-se a dois cantos atribuídos a Arctino de Mileto que relatam a recepção troiana ao Cavalo de Troia a despeito das advertências de Cassandra, o abandono de Tróia por parte de Anquises, Eneias e seus homens – fato este que será o marco da Eneida de Virgílio. Trata das mortes de Príamo, Rei de Tróia e do bebê Astíanax, filho de Heitor, pelas mãos do filho de Aquiles, Neoptólemo e como este reclama a posse de Andrômaca como sua cativa. Menelau mata Deífobo e recupera a sua esposa, Helena. Ainda nesses cantos, Menelau mata Deífobo e recupera Helena, Cassandra encontra refúgio no altar de Atena, enquanto Políxena é sacrificada ao espírito de Aquiles.

6. Nóstoi – (Os Regressos) composto por cinco cantos de autoria desconhecida que narram a partida dos Aqueus após a destruição de Tróia e como fora realizada a distribuição da pilhagem entre os principais guerreiros. A fim de apaziguar Atenas, enfurecida pela conduta dos Aqueus na guerra, Agamémnon permanece em Tróia, enquanto Menelau e Helena partem, no entanto, por conta de uma tempestade são obrigados a passarem um tempo no Egito. Em Micenas, Agamémnon é morto por Orestes, após trama armada por Clitemnestra e seu amante Egisto – a vingança pela morte de Ifigênia, oferecida em sacrifício à Àrtemis por seu pai, Agamémnon, a fim de que os ventos possibilitassem a partida dos navios helênicos rumo a Tróia.

7. Odisseia – os vinte e quatro cantos homéricos que descrevem as aventuras de Ulisses (Odisseu) durante dez longos anos tentando regressar a sua pátria, Ítaca.

8. Telogonia. Dois cantos que narram outras aventuras de Ulisses após conseguir retornar à sua casa em Ítaca. Descrevem a busca de Ulisses por Telógono, seu filho com a feiticeira Circe, que viria matar o pai num confronto, confirmando uma antiga profecia feita por Tirésias, no canto XI da Odisseia.

Vale lembrar que o Ciclo Épico era composto pelos ciclos Troiano e Tebano, deste último, faziam parte três poemas - Edipodia, Tebaida e Epígonos. Todas estas obras integravam o conjunto de poemas desaparecidos do Ciclo Épico, cujos temas foram tão bem explorados na Tragédia Grega, atravessando os milênios e chegando até nós graças o gênio criativo de Ésquilo, Sófoles e Eurípedes.  





A fraqueza dos deuses gregos e as virtudes daqueles homens


Os deuses gregos, deuses, pero que no mucho.

Se por um lado encontramos nos mitos gregos homens e mulheres divinizados pela grandeza de seus feitos como Diomedes, Heitor, Ifigênia e Penélope, por outro, deuses são flagrados constantemente padecendo das mais abjetas fraquezas humanas - intemperança, devassidão, perversidades, inveja e covardia. Na Ilíada, nos eventos entre o grande Titida, Ares e Afrodite, nos deparamos com deuses olímpicos fugindo às pressas para o refúgio de sua morada, após serem feridos por um simples mortal. Constrangimento ao qual não encontramos qualquer um daqueles homens, que por dez longos anos, longe de sua terra natal ou defendendo-a de invasores humanos e divindades ressentidas, tombavam naquelas campinas banhadas pelo seu próprio sangue.

Aquiles, arrastando o corpo de Heitor -  afresco no andar superior do salão principal do Achilleion em Corfu, Grécia.

Aquiles, o grande herói, pero que no mucho

O próprio Aquiles, um semideus tomado por muitos como o grande heroi da Ilíada,  lutava em causa própria. Munido de poderes sobre-humanos e armas forjadas por Hefesto,  abatia inimigos mais corajosos, pois cientes do inevitável, ainda assim o enfrentavam em combates assimétricos. O grande dilema do Pelida foi escolher entre dois destinos que os deuses lhe prescreveram - uma pacata, porém  longa vida no ceio pacífico de uma família ou aquela breve mas renomada existência no inferno das batalhas. E foi apenas por uma questionável glória pessoal - ser lembrado - que lutava, e por ela, chegou ao ponto de conspirar contra seus aliados, por intermédio de sua mãe junto a Zeus, para que seus irmãos em armas  sofressem as supostas consequências de sua ausência e suplicassem por seu retorno ao campo de batalha. Aquiles, por pura vaidade não apenas se negou a lutar mas ainda sabotou os gregos por conta da posse de uma cativa, Briseida, após se indispor com um rei que, se a tomou para si, também havia abrido mão da própria filha pela causa grega*; tal conduta de Aquiles, muito próxima daquilo que se conhece por traição,  custou a vida de muitos aqueus, incluindo a de Pátroclo, o seu melhor amigo. Invertendo a conhecida frase de Churchill, entre a guerra e a desonra, Aquiles escolheu a guerra...

*Bem antes dos eventos narrados no poema de Homero, ainda nos preparativos da partida rumo à Troia, segundo o relato de Eurípedes, Agamemnon estava numa floresta sagrada quando provocou a ira de Ártemis ao abater um cervo muito estimado por aquela deusa. Como punição os ventos de Áulis cessaram impossibilitando a partida de seu exército. A deusa da caça exigiu que o rei sacrificasse sua própria filha, Ifigênia. Agamemnon usando de artifícios faz com que Clitemnestra, sua esposa, traga Ifigênia até o porto de Áulis para que se realizem as cerimônias de um suposto casamento entre a princesa e Aquiles. Quando se arrepende já é tarde. Acredita-se que foi por conta desta tragédia que Agamemnon foi morto dez anos depois, em trama armada  por Clitemnestra e seu amante Egisto. 

Shakespeare não poupou Aquiles:

                  Quarrel of Achilles and Agamemnon William Page

"Pacta sunt servanda" 

A Dissonância: "Enquanto o tema se desenvolvia, no entanto, surgiu no coração de Melkor o impulso de entremear motivos da sua própria imaginação que não estavam em harmonia com o tema de Ilúvatar;" O Silmarillion - J. R. R. Tolkien

"Tróia, ainda de pé sobre a base, já teria sido aniquilada e a espada do grande Heitor há muito tempo já não teria dono, não fossem os erros que vou citar. 

“Foi desprezada a essência do governo
E vede quantas tendas gregas restam
Vazias na planície, vis facções.
Se o general não é como a colmeia, 
À qual voltam, atentas, as abelhas, 
Que mel é de esperar? Sem hierarquia
O indigno iguala o digno na beleza.
O próprio céu, os astros e este mundo
Observam grau, prioridade, escala,
E curso, e proporção, forma e rodízio,
Comando e posto em toda a linha de ordem. 
E portanto, vede o glorioso planeta, o Sol, 
trona numa nobre proeminência 
no meio das outras esferas; 
seu olhar salutar corrige o sinistro aspecto
dos planetas funestos e se impõe com autoridade
soberana e absoluta, aos bons e aos maus astros.

Mas quando os astros entram em desordem,
Que pragas, que presságios, que motins,
Que revoltas no mar, tremor na terra, 
Tempestade nos ventos, medos, horrores,
Perturbam, quebram, rasgam as raízes
Da unidade e calma dos Estados.
Se acaso se destrói a hierarquia
Que é a escada de todo alto desígnio,
Toda a empresa se abala. Como podem
Classes de escolas, ou comunidades,
Pacífico comércio entre cidades,
A primogenitura, cetros e coroas, 
Senão por graus manter-se onde merecem?
Remova-se esses graus, falhe essa nota
E vejam que discórdia! As coisas entram 
Em conflito gratuito; as águas, soltas,
Erguendo-se mais alto do que as praias
Tornam-se em lama todo o globo sólido:
O mando entrega-se à imbecilidade,
E o rude filho fere e mata o pai.
Seria a força o certo: o certo e o errado, 
De cujas lutas a justiça nasce, 
Perderia o nome, coa justiça.
Então tudo se enquadra no poder,
O poder na vontade e no apetite,
E o apetite – lobo universal –
Baseado no poder e na vontade, 
Terá co’a força o mundo como presa,
E acabará comendo-se a si mesmo."

(Shakespeare, Troilus e Créssida, I.iii. 78-124 - fala de Ulisses).



Existe uma curiosa semelhança entre os eventos que abrem e fecham o poema  - parte do momento em  que o sacerdote de Apolo, Crises, roga pela liberdade  de sua filha Criseida tomada como despojo por Agamemnon e termina com o funeral de Heitor, cujo cadáver mutilado, fora resgatado das mãos de seu algoz, Aquiles,  por um também aflito e suplicante pai em busca do filho - Príamo, rei de Troia - se o atrida, que havia sacrificado a própria filha*, humilha um sacerdote provocando a ira dos deuses, Príamo, rei dos teucros e pai amoroso, ostenta a nobreza ao humilhar-se, conquistando o respeito de seu maior inimigo.


Crises diante de Agamemnon. Mosaico, Nápoles, Casa das Ninfas, século IV.

        Príamo prostrado diante de Aquiles implorando o cadáver de seu filho, por Teobold Cartran


Os domínios de cada deus.

Zeus, Poseidon e Hades

Após derrotar o  seu pai, Cronos, na grande batalha que deu início a Geração Olímpica dos Deuses, Zeus e seus irmãos, Poseidon e Hades, dividiram entre si os domínios daquilo que, segundo a Mitologia Grega, um dia fora simplesmente o Caos. Coube a Zeus, além da supremacia no Olimpo, o governo dos céus e dos eventos meteorológicos, daí o epíteto - aquele que cumula nuvens. Os mares ficaram a cargo de Posseidon e sob a tirania do taciturno Hades, a parte mais sombria, o mundo inferior, o Tártaro; seus súditos - os espíritos dos que já não vivem. 

                                    Caronte, o Barqueiro

O Barco de Caronte por Jose Benlliure Y Gil

Segundo a crença, Caronte era o barqueiro responsável pela travessia dos recém mortos cruzando os rios Estige e Aqueronte - a funesta jornada sem volta até os vales tenebrosos de Hades. Uma ou duas moedas colocadas sobre os olhos ou boca dos cadáveres era o preço da passagem segundo a tradição funerária dos antigos gregos. Os espíritos dos que não pagavam ou cujos corpos não haviam passado pelos rituais de costume, eram repelidos impiedosamente pelo canoeiro e condenados a vagar por aquelas margens lamacentas durante um século. Daí o empenho de Príamo em resgatar o corpo de seu filho, o valente Heitor, príncipe de Troia. 

Cite-se a propósito, a cena descrita pelo autor romano Luciano de Samósata,  125 - 181, em sua obra Diálogos dos Mortos, na qual Caronte, o barqueiro de Hades,  insistia desesperadamente com o filósofo cínico Menipo para que este lhe entreguasse o óbolo, pagamento obrigário, sem o qual os mortos não poderiam passar para o reino inferior. Sucede-se que Menipo não tinha com que pagar, pelo que só restaria uma solução: colocar na margem da vida o passageiro inadimplente. 


Todo o cerco, segundo Dares Frigio, durou dez anos, oito meses e doze dias,  806 mil gregos e 278 mil troianos tombaram naquelas planícies, ressoando-lhes em torno a armadura. A maioria dos historiadores situam a Guerra de Troia no período que vai de 1194 a 1184 a.C.  A história aqui, muitas vezes se confunde com o mito, vários eventos segundo a crença grega, ja haviam sido previstos por oráculos e a própria guerra fora um expediente utilizado por Zeus a fim de  aliviar a pesada  carga de seres humanos sobre uma exausta e queixosa Gaia (Terra). 


Os deuses certamente não eram gregos nem troianos, mas por motivações diversas preferiam uns a outros e  tiveram uma participação tão intensa e decisiva no conflito que muitas vezes lembram os nossos atuais gamers manipulando guerreiros virtuais com seus joysticks. Mas nem sempre e nem todos aqueles avatares encarnados  eram controlados pelas divindades olímpicas. Heróis como Diomedes as desafiaram e foram capazes de apresentá-las à dor, ao medo e à petulância dos mortais, ao feri-las com suas lanças certeiras de sombras cumpridas e fazer-lhes jorrar o icor, o sangue dourado dos deuses.

                            Arthur Heinrich Wilhelm Fitger - Diomedes Ferindo Afrodite.


Ilíada, Canto V 
Após Diomedes ferir Afrodite, as palavras aladas de Homero na vóz do Titida:

             “Filha de Zeus poderoso, conserva-te longe da luta.
             Ou seduzir não te basta mulheres privadas de força?

             Se ainda sentires desejo de ver um combate de perto,
            creio que só o nome ‘guerra’ há de grande pavor inspirar-te.”

 
                O Segredo das muralhas.

                  As Ruínas de Troia 7, uma das Fantásticas descobertas de Heinrich Schliemann 

Os gregos conceberam deuses humanos demais. Zeus, que havia destronado seu antecessor, o próprio pai, Cronos, dando origem a geração olímpica, foi também surpreendido por algumas insurreições arquitetadas por  seus pares. Numa delas, com a ajuda da Nereida Tetis que viria depois ser a mãe de Aquiles, manteve-se no poder e puniu os rebeldes. Dentre os frustrados estavam Poseidon e Apolo, como punição ambos foram submetidos à maior humilhação que se poderia impor  a uma divindade Olímpica: reduzi-los, ainda que por apenas um breve período, a meros serviçais de um simples mortal. O escolhido foi Laomedonte rei de Troia pai de Príamo.Uma das tarefas: a construção das famosas muralhas, eis porque eram barreiras intransponíveis e jamais foram superadas pela força dos homens - não foram erguidas por mãos humanas...


Continua.

sexta-feira, 11 de junho de 2021

A Pseudo Direita, o Fenômeno da Vídeo Cultura e a Retórica

 

Você sofre de Analfabetismo Funcional? Incultura? Ignorância Aguda, crônica ou inflamatória? Doutrinação Marxista-Leninista-gramichiniana, Deseducação Paulo Freiriana, miopia, astigmatismo ou paralaxe cognitiva? Não é capaz de refutar Newton, Eisntein, Kant ou outros tipos de idiotas incultos como jornalistas, escritores ou professores universitários? Seus problemas acabaram! Vire à direita, abra a carteira, tampe o nariz e escolha seu pacote de vídeo aulas! 
Apesar de associarmos à Retórica nomes como Demóstenes, Ésquines, Isócrates, Lísias, Cícero, Pascal... Olivier Reboul e não eu, adverte: "Para o senso comum Retórica é sinônimo de coisa empolada, artificial, enfática, declamatória, falsa..." creio que caberia, "ideológica, oportunista...esquerdista", eis a Retórica da pseudo direita cultural brasileira. Mas os fatos são outros e entre tantos, primeiro que há retórica na literatura ocidental pelo menos desde o canto IX da Ilíada e segundo, que a pseudo Direita cultural também cultiva chavões, fetiches e panelinhas... um Jabuti é testemunha... 



Além da "retórica" do título e do slogan, que mais além de retórica haveria no livro do Sr. Gurgel? Literatura?! O autor também ministra cursos online. Aliás, essa moda pegou depois do grande sucesso de seu professor - Filósofo da pseudo Direita - no Youtube e no seu Curso Online de Filosofia. Basta o professor do professor dizer que gostou de um autor que parte do mercado editorial entende - publique-se porque a coisa é "conservadora de direita" e vai vender! E de fato vende mesmo, o professor é um astro e "muito persuasivo". Semelhante fenômeno ocorreu e ocorre com Youtubers, booktubers, blogueiros, ex-atores pornô, roqueiros decadentes, ex-feministas ukranizantes, bbbs soprano-stridentes e candidatos à presidência da república. Tem até blogueiro que mal fala um português razoável quando brinca de jornalismo (jornalismo de baixo calão, diga-se de passagem) dando aulas de, pasmem, Tomismo! 

O mais interessante é que o professor do professor já tinha dado uma aula em seu curso on-line de filosofia acerca deste uso inapropriado do referido vocábulo: 

"Um desses lugares comuns, ou topoi, diz respeito ao uso da própria palavra “retórica”, que entrou na mídia brasileira através dos "meus dois livros": A teoria dos quatro discursos e o Como vencer um debate sem precisar ter razão, (na verdade, o título do primeiro livro citado é Aristóteles em nova perspectiva, e do segundo, o professor só é dono do prefácio do livro cujo o autor é  Schopenhauer) principalmente deste último, que fez um sucesso  enorme e todo mundo leu. Daí todo mundo começou a falar de retórica e usar todos aqueles  termos: argumentum ad hominem, tertio non datur, que começaram a proliferar por todos os  lugares imediatamente, mas todos usados à maneira brasileira, na base da macaqueação, sem  tê-los examinado mais profundamente. A partir daí se distribui pela mídia brasileira, sobretudo  nos debates ditos cultos, um certo uso da palavra retórica que ele mesmo denota um fenômeno  muito raro de incompreensão. (...) "

O professor continua descrevendo e diagnosticando:

"Trata-se daquele fenômeno que eu já descrevi, que é também tipicamente brasileiro, de se usar uma palavra pela impressão  emocional que a própria palavra causa. A própria palavra gera uma reação emocional, pelo fato  de ela ter sido usada reiteradamente da mesma maneira. Quanto mais usada neste mesmo  sentido, mais o efeito emocional é automático, sem que seja necessária a mínima referência à coisa que ela supostamente designa (ah! a ausência do referente na linguagem afetada, Olavo chamava de vocabulário psicótico, um dos sintomas de analfabetismo funcionial em estágio avançado... quem diria). Se você se acostumou com a ideia de que retórica é uma  técnica elegante de mentir, é claro que a palavra vai causar um efeito negativo ou pelo menos ambíguo, você conta com isso." 
 
O professor explica como a Filosofia necessita da Retórica:
 
"Nem sempre contamos com um arsenal terminológico pronto e perfeito. No início de um estudo, quando  ainda estamos sondando um assunto, é normal usarmos os termos com os quais a coisa é designada no debate geral, para depois, à medida que o estudo avança, tentarmos defini-la de forma mais precisa. (e isso faz parte da natureza da filosofia, ensinava o professor do professor, lição de Hegel: a dialética avança superando conceitos parciais ou até falsos) mas temos que usar os conceitos parciais que são os únicos a nossa disposição no início, e são exatamente aqueles que são usados no debate público. Novamente o professor nos lembrava que só existe uma dialética onde existe uma retórica antes. 
 
E o que é uma retórica? é a arte da persuasão, é uma maneira de induzir as pessoas a fazer algo que você quer que ela faça. O argumento retórico  não é verdadeiro nem falso, ele tem que ser persuasivo! Ele pode coincidir com a verdade ou coincidir com o erro. Retórica não visa enganar as pessoas, mas também não visa lhes dizer a verdade.  Visa tão somente induzi-las a uma determinada ação. 
 
Se não há uma multiplicidade, uma rede discursos retóricos circulando na sociedade a mente dialética não tem o que  examinar porque a dialética é confrontação dos discursos retóricos contraditórios e a sua articulação e comparação em termos mais rigorosos para se chegar ao que? uma proposta de ação? Não! Para se chegar a uma aproximação da verdade naquele debate.  Então é claro que todo exame dialético parte de termos usados retoricamente, mais tarde, no curso do exame, você vai superá-los e jogá-los fora."Ual... Certamente o autor não consultou as aulas as quais faltou antes de escolher o título de seu livro, que pena!

Olivier Reboul em sua Introdução à Retórica nos remete a um diálogo Socrático onde  Górgias argumenta que se um retor e um médico se candidatassem ao posto responsável pela saúde pública de uma cidade sairia vencedor o primeiro dado o poder da retórica. Teria sido desta forma que os astrólogos se tornaram filósofos e mercadores, críticos literários? Eu não sei...   marqueteiros, oportunistas, sofistas... existem  desde a antiguidade se declarando capazes de qualquer coisa vender e até mesmo, por que não, vender-se.

"Não há ilustre capitão que nunca tenha tido gosto nem sentimento pelo patrimônio do espírito humano. Por trás das vitórias de Alexandre encontramos sempre as conquistas de Aristóteles". Charles de Gaulle.


Sim... Le Brésil n'est pas un pays serieux!

Mas os cursos de Escrita Criativa ou Oficinas Literárias e afins destacam-se dos demais empreendimentos culturais da pseudo direita, não pelos frutos (eles não produziram mais escritores do que a USP, filósofos como eles próprios dizem... mas pelo preço -  são caríssimos... reconheçamos - esse pessoal é bom de retórica, haja eloquência! ; )



Vá ler livros, Zé Mané! 

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Barraco Literário: Otto Maria Carpeaux, Dalton Trevisan e os 500 Ensaios

 


Sessões de adulação mútua, panelinhas, ressentimentos, fetiches verbais...  "Acuse-os do que você faz, chame-os do que você é". Lenin... ou terá sido Lennon? 

“O que constrange no Sr. Carpeaux, portanto, dentro dos quinhentos e tantos ensaios que já publicou no Brasil, segundo dados de alguém versado em estatística e que queria, para nosso castigo com certeza, tomasse o governo brasileiro o encargo de republicá-los em volumes, é justamente não se perceber nada que possa constituir um testemunho de nossos estados de espírito particulares, no sentido do que possa haver de atual ou de efetivo em nossa cultura. ” 

O fragmento crítico acima parece atual, muito similar às objeções que os BookTobers de hoje e de direita fazem aos escritores que não compartilham de sua mesma (tenhamos boa vontade) cosmovisão, os chamados “modernistas” ou “progressistas”.  No entanto, 500 Ensaios é o título do artigo polêmico publicado no número 21, o derradeiro da revista Joaquim. O ano era 1948 e do artigo Otto Maria Carpeaux, queridinho desta facção conservadora (mais um pouco de boa vontade), não era o autor, mas a vítima.  

O curioso dessa história é que Dalton Trevisan, o misterioso e bem sucedido escritor paranaense, por ser o fundador da revista Joaquim  foi tomado como o autor das linhas contra Carpeaux e recebe deste um duro (contra)golpe em forma de Crítica Literária “isenta” e desafetada (crítica isenta que contrariou nada menos do que um Jabuti).

Uma década depois, quando tudo já parecia resolvido e superado, numa reviravolta digna das novelas mexicanas o verdadeiro pai dos “500 ensaios”  se revela ao mundo intacto e com as mesmas opiniões sobre Carpeaux... tão diferentes e iguais das que lemos hoje em dia. Será mesmo que esta turma Tem Razão e como vivem repetindo -  direita e esquerda são sinônimos de certo e errado, respectivamente? Ou estes pseudoconservadores daqui  apenas sofrem da saudade do que nunca existiu? Afinal alguém já disse que os ditos "bons tempos" não passam de uma aliança entre péssima mémoria e fértil imaginacão.

Sem mais delongas, apreciemos a treta:

500 Ensaios – Revista Joaquim n° 21.

Quando o Sr. Otto Maria Carpeaux iniciou a sua carreira literária no Brasil – e já lá vão perto de dez anos -, houve entusiasmos de primeira hora que não tinham a escudá-los nenhuma justificação séria, como houve, depois de certo tempo, o reverso da medalha: um tratamento pouco simpático, às vezes agressivo, contra aquele que se contentaria em chegar a ser um dia, um bom camarada, um companheiro nosso, segundo o depoimento de Álvaro Lins, então empolgado com a sua descoberta. 

Certamente que tudo isso mudou muito hoje, a despeito de continuar invariável a presença de Carpeaux em vários suplementos de jornais. Os suplementos o acolhem e lhe reservam lugar de destaque, por motivos de economia interna com que nada temos que ver. 

Mas haverá, por acaso, alguém capaz de acreditar agora que o Sr. Otto Maria Carpeaux tenha sido inspirador de alguma nova corrente de vida em nossa literatura? De alguma corrente que tenha sido rica em ensinamentos, em diretivas morais e intelectuais?

Hoje, que muita água já correu sob a ponte, estão porventura confirmadas aquelas qualidades de profeta pessimista (um pessimismo que nada tinha de demissionário, mas antes de consciente, de trágico, de viril) que lhe exornavam o retrato tão favorecido com que de antemão nos brindara o seu panegirista exaltado de outrora? 

A resposta negativa de há muito que já veio em torno do camarada tão pouco camarada, que continua mais estrangeiro no Brasil do que quando aqui aportou. 

Sim, falando sempre por cima, com grande decepção para aqueles que quiseram lhe enxergar propósitos e sentimentos fraternais de união conosco, o Sr. Otto Maria Carpeaux tem demonstrado em nosso meio apenas uma preocupação: a de deixar erudição, de nos aturdir com a sua duvidosa sabedoria, sem ter até agora visado qualquer objetivo mais alto. Mais alto ou que tivesse em consideração pelo menos o que é inerente a todo escritor que se preza, interessado em captar o espírito, a palavra falada de uma geração ou de uma época. Pois não resta dúvida que um escritor deve sintetizar essa palavra, pondo-a em letra de forma. É o que se costuma chamar de seu caráter de historicidade. Todo escritor deve possui-lo, sob pena de se tornar inatual e padecer do mal irremediável que é o recuo ou o alheiamento no tempo e no espaço, sem nenhum apoio nos elementos profundos de um povo ou de uma geração. A função do escritor é bem a de recortar as palavras e as frases em uso para projetá-las adiante, etc. A historicidade é isso e um escritor que conta o que vê em seu desredor, sensível ao seu meio e ao seu tempo, é bem um arquiteto da história. 

O que constrange no Sr. Carpeaux, portanto, dentro dos quinhentos e tantos ensaios que já publicou no Brasil, segundo dados de alguém versado em estatística e que queria, para nosso castigo com certeza, tomasse o governo brasileiro o encargo de republicá-los em volumes, é justamente não se perceber nada que possa constituir um testemunho de nossos estados de espírito particulares, no sentido do que possa haver de atual ou de efetivo em nossa cultura. 

Poderão objetar que a crítica de Carpeaux não tem sido indiferente a muitos de nossos escritores. A um Álvaro Lins, a um Graciliano Ramos a um Carlos Drumond de Andrade, não é possível negar, ela tem feito referências. Mas quanta incompreensão, quanta especiosidade nessa crítica!

Se quisermos ser rigorosos, seremos forçados a admitir que nada de novo ela veio acrescentar ao que a crítica indígena já nos havia descoberto ou explicado, acerca dessas importantes figuras.

Poderão ainda falar na esquisita originalidade de visão que a crítica de Carpeaux apresenta, de permeio com a sua erudição impressionante e que a princípio não nos deixara indiferentes. 

Tudo isso, porém, se volatilizou e esfumou no passado. A erudição indigesta que o Sr. Carpeaux continua nos impingindo, nos deixa agora de todo indiferentes. Se não fosse isso, como explicar a nossa paciência? 

Um merecimento, de resto, ainda hoje cabe a Carpeaux e que lhe permite cultivar os seus ressentimentos, dar pasto às suas simulações de amizade, assumir com desenvoltura a sua ênfase professoral, etc. Queremos nos referir às suas habilidades de infiltração dentro do espírito de "coterie" existente no Rio de Janeiro. 

Sob esse aspecto, é que sua figura ainda nos pode interessar. Pois Carpeaux se tornou hoje um dos maiores representantes desse mesmo espírito que ele pretende ver generalizado em todo o Brasil. 

O seu sistema, graças à independência e ao desassombro de alguns moços, já está desmascarado. Esse papel de um novo Mario de Andrade junto dos novos não lhe será confiado, temos hoje certeza. 

Falta-lhe muita coisa para isso. Falta-lhe principalmente sinceridade e honestidade. 

Falta-lhe um ativo ponderável de participação benéfica e inteligente em nossa vida literária. Uma participação que pudesse, por exemplo, ser colocada no mesmo plano da de um Roger Bastide. 

O que os moços veem em Carpeaux é um desprezo profundo por tudo quanto é nosso e se mantém incólume diante das dissolventes e incaracterísticas contaminações estrangeiras. Eis a razão porque ele não vislumbra nenhuma tendência no romance brasileiro digna de nota. Uma palestra sua a respeito e recentemente publicada em “O Jornal” é prova disso. 

Antipático esse seu ar de regente, que ultimamente ele vem disfarçando com uns laivos de humour desenxabido. A sua erudição morta, que nada tem dos jardins povoados de plantas vivas, de que falava Saint-Beuve, cujas propriedades nos fossem ensinadas, passou agora a ser entremeada de tons irônicos, de pouco caso, que mais agravam a mesquinhez e a indigência da visão carpeautiana. 

Quando ele se põe a corrigir e a distribuir justiça, não sabe então fazê-lo a não ser no estilo daquele horroroso artigo publicado no “Quixote”, tratando do erudito português, seu rival, Mendes dos Remédios, a seu ver, um caso específico de burrice portuguesa. Estilo intolerável, que mais parece ser uma tradução mal feita. Tradução, por sua vez, de uma língua estrangeira que Carpeaux é o primeiro a conhecer mal e cuja leitura tanto nos cansa. 

Mas esse artigo do “Quixote” é uma definição completa. Nele Carpeaux não se limita apenas a Mendes dos Remédios. A sua erudição leviana aborda muitos assuntos. Ora mete a ridículo os nossos Silvio Romero e Ronald de Carvalho. Ora verbera Chostakowski, o autor da “História da Literatura Russa” há pouco traduzida para a nossa língua, classificando-o de “pobre diabo”. Ora é Van Tieghen que é acusado de não obedecer a ordem cronológica em seu compêndio de história da literatura universal, com apoio em exemplos díspares, que nada ferem o critério estabelecido. Ora ainda é um historiador da literatura espanhola que é imputado de omissão não cometida em relação à poetisa Rosália Castro, etc. 

O que resulta, afinal de contas, é a inconsistência de pensamento e muitas vezes de informações em que se firmam as análises críticas de Carpeaux, cujo resultado não é outro senão o de nos lançar na confusão e na dúvida. 

Se é que se pode falar em contribuição a respeito de Carpeaux, a sua tem sido antes dirigida no sentido de desnaturar a nossa crítica, emprestando-lhe recursos de uso proibido que a desvirtuam totalmente e, sobretudo, privando-a desse requisito que lhe é consubstancial, como aliás  é da crítica em geral: o bom gosto. 

Que mau gosto alarmante o de Carpeaux! Um mau gosto que nos faz lembrar o paradoxo de Stendhal, traduzindo às vezes uma verdade patente: o mau gosto leva ao crime. 

No caso de Carpeaux, de sua erudição indigesta, irreal e às vezes falsa, por certo que esse perigo não existe. Que pode haver nele e nela de comum com os moços e as suas experiências?: Que pode haver nele e nela de comum com o Brasil? 

A Resposta de Carpeaux.

Uma crítica nada desafetada ao desafeto errado

O VOLUME Novelas Nada Exemplares, do Sr. Dalton Trevisan, tem 214 páginas. É fácil calcular o tamanho médio das 30 histórias. Várias só têm 4 páginas; a mais comprida, 14 páginas. Não correspondem, portanto, ao conceito usual da “novela” como conto longo ou romance breve. Mas tamanho não é critério. Em face das confusões que os falsos mansfieldianos difundiram acerca da arte novelística de Tchecov, um conhecedor da matéria, o professor Johannes Klein, em sua Geschichte der Deutschen Novelle (Wiesbaden, 1954), esforça-se para caracterizar melhor os gêneros afins: a novela, pelo elemento da surpresa (que a aproxima do drama), e a short-story pela pointe (que a aproxima do drama). Chega mesmo a uma definição epigramática que cito sem querer assiná-la: “Uma novela é boa quando surpreende; uma história curta surpreende quando é boa”... Mas para que servem as discussões multisseculares e estéreis sobre gêneros e subgêneros? “Tous les genres sont bons, hors l'ennuyeux.” Etimologicamente, a novela é gênero que nos conta algo de novo, digno de ser contado. E que é que o Sr. Dalton Trevisan nos conta?

A matéria do Sr. Dalton Trevisan é a vida de gente primitiva: crianças, adolescentes, pequenos empregados, prostitutas, criminosos, idiotas, loucos. Exemplo: um menino adoece; os pais ficam desesperados; o menino morre; e é só. É o enredo de Pedrinho, que abre o volume. O acontecimento é triste, mas não é trágico, não é dramático, não surpreende, não é novela. Diriam que é uma trivialidade? Não seria censura, seria definição. A vida de gente primitiva costuma ser trivial. Por isso, o termo define perfeitamente as trinta histórias do volume.

Tudo é trivial naquelas vidas. Triviais são os horrores: descrições minuciosas de agonias, tentações, crimes (O Morto na Sala; Tio Galileu; O Convidado; Últimos Dias); nas 8 páginas de Aventuras de João Nicolau condensou o autor uma biografia inteira cheia de todos os crimes e abjeções possíveis, contada em estilo telegráfico como se fosse necrológio de um malfeitor na crônica de um vespertino. Triviais são as cenas escabrosas (No Beco; A Velha Querida), instantâneos de visitas em casa de prostituta principiante ou em bordéis. Quando o autor deixa sem explicação os motivos do comportamento dos seus personagens (O Noivo; O Domingo; Quanto de Hotel), consegue transformar em trivialidade o Absurdo. Em histórias como Gigi ou Meu Avô, o próprio assunto é a trivialidade tout court e mesmo muito curta.

Assim como W. H. Bruford (Tchecov and his Russia, Londres, 1947) desenhou um mapa da Rússia habitada pelos personagens do grande contista, assim seria instrutivo um mapa da Trevisanlândia: país habitado por loucos, idiotas, sádicos, prostitutas, meninos perversos, pederastas, cornos, assassinos, incestuosos, estupradores, presidiários, que moram em celas sujas, em pensões sujas, em becos sujos. Todas as 30 histórias são parecidíssimas, cada uma com cada qual outra. São como as caras de que dizia Wilde: “Uma vez vistas e nunca mais lembradas.” Seriam “nada exemplares”? Não. São exemplos perfeitos daquele gênero ennuyeux. Caracterizam-se pela ausência total de humor. No entanto, o autor pensou no maior dos humoristas ao escolher o título do seu volume, que evoca as Novelas Ejemplares de Cervantes, provavelmente o mais importante livro de novelas da literatura universal.

A pretensão inédita desse título parece desafio à crítica. No entanto, esta, insensível a provocações, não deixará de assinalar, logo mais, o lado positivo da novelística do Sr. Dalton Trevisan. De um livro totalmente inútil o melhor seria não falar. Sou contra o conceito que atribui à crítica a tarefa de policiar o mercado de livros. O protesto só se justifica quando a publicidade ameaça perturbar a hierarquia dos valores, iludindo o público e, sobretudo, os escritores principiantes, sempre em perigo de seguir maus exemplos muito elogiados.

Só acontece isso com livros publicados por grandes casas editoras que, nem sempre bem aconselhadas na escolha das suas publicações, empenham seu prestígio, com imparcialidade, a favor de obras boas e de obras menos boas. No caso de Novelas Nada Exemplares já se podia ler que não se trata de “obscenidades gratuitas”, mas de um corajoso ataque contra as convenções morais. Examinarei logo mais a natureza desse ataque. Mas se, talvez, leitores ingênuos caírem na cilada, esperando delícias escandalosas em letras de forma, sejam advertidos: o livro do Sr. Dalton Trevisan não é pornográfico. Numa história como No Beco, encontros de um adolescente com uma prostituta principiante, o autor chega a fazer uso abundante de cautelosas reticências. A mais audaciosa das suas frases — “... ergueu o vestido para que eu visse, e eu vi” — não é revelação, a não ser para um adolescente. Mas mesmo alguns leitores mais crescidos acharão flagrante bem observado.

É este o lado positivo da novelística do Sr. Dalton Trevisan: é observador atento dos pormenores da realidade. Sabe imitar a fala da gente primitiva. Talvez sua verdadeira vocação seja a de cronista do cotidiano; e o cotidiano nem sempre é muito limpo. Se não fossem aquelas reticências, o Sr. Dalton Trevisan poderia parecer naturalista.

Mas é o Sr. Trevisan naturalista? Tratando dos dois maiores contistas do naturalismo, Maupassant e Verga, críticos como Croce e Luigi Russo, como Renato Serra e Roland Barthes salientaram os motivos de piedade misericordiosa e de pavor pânico na descrição das existências primitivas e dos seus destinos catastróficos, o que — nem em Verga nem em Maupassant — exclui a serenidade superior do humorista. O Sr. Dalton Trevisan, que desconhece a atitude do humor, tampouco se apieda das suas criaturas. O motivo da sua atividade de novelista é outro: é a profunda aversão contra a vida que criou essas criaturas e contra a vida que levam.

Considerado assim, o livro do Sr. Dalton Trevisan pertence a uma grande tendência da literatura moderna: para defini-la bastam nomes como Sartre, Camilo José Cela e Moravia. É a literatura da nausée. Mas sente-se na leitura das Novelas Nada Exemplares que não foram escritas em Paris nem em Madri nem em Roma. A nausée do autor curitibano não é produzida pela vida sans phrase, mas apenas pela estreiteza da vida provinciana, que lhe parece maldição apocalíptica. Sabe descrever esses seus ambientes com segurança de um naturalista. Mas exagera tremendamente. Não se sente seguro dentro desse mundo porque, na realidade, não é seu mundo.

Esta falta de segurança revela-se nas vacilações do seu estilo. Às vezes, dispersa o enredo (Chuva); outras vezes, conta em poucas páginas uma movimentadíssima vida inteira (Aventuras de João Nicolau). As mais das vezes conta em estilo de telegrama ou de notícias de repórter; outras vezes, perde-se nos meandros de intermináveis frases pseudoproustianas (A Velha Querida). Não é principiante no gênero, mas parece principiante na vida, de menor idade emocional do que intelectual. Os muitos pormenores observados na realidade não se integram numa realidade artística, reflexo da outra. As histórias do Sr. Dalton Trevisan, contos de más fadas, parecem-se com Tagtraeumen, sonhos de acordado, excessos de imaginação desenfreada de um adolescente cheio de ódio contra sua realidade que é “luxe, calme et volupté” duma existência comodamente burguesa. Eis o motivo que inspira a esse jovem discípulo de Gide o grito de revolta contra a falta de sentido na vida. Mas muito naturalmente — ninguém renunciaria à sua vida para escrever contos — o autor só encontra essa falta de sentido na vida de outros, de criaturas inferiores, primitivas, insignificantes. Daí a extrema insignificância dos seus enredos. Como lema do volume poderiam servir os versos de Shakespeare:

“... (Life) is a tale

Told by an idiot, full of sound and fury,

Signifying nothing.”

O Sr. Dalton Trevisan responsabiliza a Vida pela falta de sentido das suas histórias. Mas — com licença para a observação — é ele, o autor, que as conta.

Não é esse o caso das novelas que o Sr. Dalton Trevisan evocou ao escolher o título do seu volume. No entanto, a comparação com o grande livro de Cervantes poderia servir para justificar a tentativa audaciosa do escritor paranaense. Conforme Joaquín Casalduero (Sentido y Forma de las Novelas Ejemplares, Buenos Aires, 1943, p. 40), os acontecimentos nas novelas de Cervantes criam nos personagens um estado de alma próprio “para el hombre salvarse”. Nas novelas nada exemplares do Sr. Dalton Trevisan, os acontecimentos criam nos personagens um estado de alma próprio para o homem perder-se. É uma inversão perfeitamente legítima, à condição de os acontecimentos prepararem, justificarem a surpresa da perdição (como, em Cervantes, a da salvação); isto é, à condição de tratar-se de novelas. Assim voltaremos às conclusões de Johannes Klein: “Uma novela é boa quando surpreende; uma short-story surpreende quando é boa.” Já se vê que as histórias curtas do Sr. Dalton Trevisan não surpreendem.

Texto Fonte: CARPEAUX, Otto Maria. Ensaios Reunidos 1942-1978, Volume I, De A Cinza do Purgatório até Livros na Mesa. Rio de Janeiro, UniverCidade Editora/Topbooks, 1999. (pgs. 897-900). Editado por: Pedro G. Segato WRITTEN BY

Carpeaux X Novelas Nada Exemplares, ganhou o Jabuti

Antes da revelação do verdadeiro autor dos 500 ensaios, lembremos que há 62 anos saía da gráfica da José Olympio Editora Novelas nada exemplares, o livro que Carpeaux tentou destruir e que faria Dalton Trevisan ser reconhecido nacionalmente como o grande escritor que é. Obra que conquistaria, no ano seguinte, o Jabuti de melhor livro de contos. Nada mal para a estreia de um autor iniciante e desconhecido. Só que, em se tratando de Dalton Trevisan, nada é tão simples: Novelas nada exemplares não era seu livro de estreia e ele não era nem iniciante nem desconhecido.  Da importância do Jabuti: O escritor curitibano tinha entre seus colegas premiados naquele ano nomes como os de Antonio Candido, com o fundamental Formação da Literatura Brasileira”, na categoria “História Literária”; Menotti del Picchia, escolhido como “Personalidade literária do ano”; o baiano Sosigenes Costa, como “Obra Poética”; e Marques Rebelo, pelo romance O trapicheiro. O evento da Câmara Brasileira do Livro estava apenas na sua segunda edição e desde então é o principal prêmio literário brasileiro.

Temístocles Linhares  - A Revelação 

Diário de um Crítico, apontamentos do dia 02 de Junho de 1959 p. 138. 

Ontem tive a visita de Dalton Trevisan, hoje um dos autores mais falados no Brasil, com a publicação de suas Novelas nada exemplares, que está recebendo calorosos comentários da crítica. Como é natural, depois de tamanha celeuma de publicidade, já começam a surgir vozes discordantes. Entre estas está a do velho Otto Maria Carpeaux, que pretende demolir o livro através de um verdadeiro malabarismo (aliás falso) de palavras, com base na definição da novela de um autor alemão, segundo a sua tática já desmoralizada. A crítica denuncia o método que lhe é característico; mas o que ela mostra escancaradamente é o ressentimento que ele tinha engasgado (e talvez o deixasse mais gago ainda) na garganta há mais de dez anos. 

Como esse homem é mesquinho! Confesso que não o imaginava assim tão pequeno e ridículo. A história é simples. Nos tempos da Joaquim, ele foi desmascarado por um artigo de redação da revista. Otto Maria Carpeaux vivia escrevendo cartinhas aos moços para lhes dar conselhos e fazer, sobretudo, cartaz à custa deles. A revista prestou um serviço à literatura brasileira acabando com essa mistificação. De resto, depois disso, Otto Maria Carpeaux ficou reduzido às suas exatas proporções. Não se tratava de nenhum sábio, nem de nenhum homem sério. O seu processo de desmistificação começou aí, nessa ocasião. O pior é que ele ficou atribuindo a autoria desse artigo a Dalton Trevisan que, no caso, estava como Pilatos no Credo. O artigo em questão fora redigido por mim. Embora um pouco maldoso, não me arrependo de tê-lo escrito. Era uma iniciativa de saneamento que alguém precisava tomar e que a revista tomou. Hoje, decorrido tanto tempo, ele se vinga dessa maneira, mostrando mais uma vez o seu caráter e sua falta de dignidade em assuntos literários. 

06 de Março de 1960, p 193. Retomo a leitura de jornais e suplementos, depois de uma ausência de quinze dias. As capelas literárias continuam a funcionar como antes. Parece não haver lugar no mundo em que a literatura seja tratada tão pessoalmente, em função da pessoa dos autores, como no Rio de Janeiro. Ali se representa a maior comédia literária do país. Cidade carnavalesca, nada é levado a sério em seus domínios. Chegam a beirar o cinismo os comentários de elogio mútuo com que se mimoseiam  um Franklin de Oliveira e um Otto Maria Carpeaux. 

Aliás, nunca vi homem mais sujeito à paixão do que este humanista vaidoso, que se gaba de ler todos os livros de todas as literaturas. (O Tipo é bem atual)

Como é provinciano o meio literário carioca! Só aparecem ali os que fazem vida literária, os que estão exibindo suas ilustres pessoas nas rodas de livrarias e nas conversas e diz-que-zis-ques venenosos que pretendem fazer e desfazer reputações. Sinto-me feliz em viver longe de tanta mesquinhez e acanhamento mental. 

A literatura não é isso, não deve ser isso. Digna de mais respeito, ela tem de seguir outros rumos, caminhos mais altos, que a literatura de panelinhas e julgamentos tão estritamente pessoais, tal como ocorre no Rio, onde se representa, sem dúvida, a maior comédia literária a que já tive ocasião de assistir. 

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