sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A Fronte coroada de espinhos

e os ligeiros barcos da Aônia

Como vim a editar as Memórias de Além-Túmulo (em breve na Amazon e/ou aqui em nosso blog)

Comecei por dois fragmentos mal lembrados.

Foi lendo Antoine Albalat, há uns dez anos, que encontrei Chateaubriand pela primeira vez. Albalat ensinava a escrever pela assimilação dos grandes prosadores, e punha Chateaubriand entre os primeiros — citava-o como se cita um mestre de quem não se discute a autoridade. Duas passagens me ficaram na cabeça e de lá não saíram.

A primeira:

"Ligeiros barcos da Aônia, sulcai o mar calmo e sereno, escravos de Netuno, defraldai as velas ao sopro amoroso dos ventos."

A segunda, de Atala, na tradução portuguesa que Albalat me trouxe — e que eu mesmo retoquei, trocando "chefe" por "Líder":

"E que soldado há, tão covarde, capaz de recuar, quando o Líder caminha à sua frente para salvar os homens, vergado pela cruz e com a fronte coroada de espinhos?"

Um mar calmo com barcos ao amanhecer, e um exército atrás de um Chefe ferido. Foram esses dois que me fizeram ir procurar o livro.

Dez anos de porta fechada

Não encontrei. Procurei por uma década, em sebos e catálogos, em bibliotecas e depois na internet, e mais tarde perguntei às máquinas, que também não sabiam. Havia excertos: páginas antologiadas, capítulos vertidos em teses, citações fartas na crítica. A obra é constantemente referida em português e quase nunca lida em português. O paradoxo é grande, porque o título ecoa no nosso maior romance — as Memórias Póstumas de Brás Cubas, de 1881, conversam abertamente com a ideia de um morto que escreve, e Machado conhecia bem o livro do visconde.

A razão do silêncio não é mistério. São quase três mil páginas de prosa densa, cheia de latim, de versos citados de memória, de despachos diplomáticos e de alusões que já eram eruditas em 1849. Traduzi-la por inteiro é empresa de fôlego. Ninguém a tinha feito em português, e eu entendia perfeitamente por quê.

Havia ainda um obstáculo que era só meu: eu não falo francês.

Durante dez anos, a minha situação foi a do leitor comum diante de uma porta fechada. Sabia que o livro existia, sabia que era grande, sabia que não havia tradução — e não tinha como fazer nada a respeito. 

Três mil páginas do francês oitocentista são anos de trabalho para um profissional, e custam o que custa uma equipe editorial. Não era questão de vontade.

O que abriu a porta

O que abriu a porta foi o Claude, da Anthropic. Não porque tenha feito o trabalho sozinho — não fez —, mas porque tornou possível que alguém sem francês conduzisse a empresa e respondesse por ela.

A máquina verteu o texto; a mim coube decidir o que se traduzia, contra que exemplar, com que critérios, e conferir o resultado. E conferir era possível sem saber francês: os sumários dos capítulos estão impressos no original e cotejam-se um a um; as datas, os nomes e os números conferem-se contra o fac-símile da Biblioteca Nacional de França, que está livre na Gallica; e a coerência interna de quase três mil páginas mede-se em português — foi aí que apareceram quase todos os erros.

Não é pouco nem é tudo, e prefiro dizer as duas coisas. Sem essa tecnologia, esta edição não existiria: dez anos de procura frustrada são a prova. Com ela e sem o resto, também não existiria — o que se entrega a uma máquina sem método volta como um monte de páginas plausíveis.

O que se decidiu traduzir

A obra que agora existe em português tem 2.864 páginas, 536 capítulos, quarenta Livros e um Suplemento, distribuídos por doze volumes — os mesmos doze da edição original de Paris, E. e V. Penaud frères, 1849-1850, na mesma ordem e com o mesmo conteúdo.

A primeira decisão foi traduzir a primeira edição, e não as críticas modernas. Existem edições melhores — Biré, Levaillant e Moulinier, Berchet — que corrigiram o texto sobre os manuscritos e restabeleceram passagens que os editores de 1849 haviam atenuado. São as que hoje se leem em França, e são superiores como texto. Mas a de 1849 tem um valor que nenhuma delas pode ter: é o livro tal como o século XIX o leu, com os seus sumários em itálico, as suas fileiras de pontos onde o corte foi feito, e o seu Suplemento final. É o livro que chegou a Machado.

A segunda foi mais trabalhosa do que eu esperava. A edição de 1849 não imprime a divisão em Livros. Traz tomos e capítulos, e mais nada. Os Livros — que são a arquitetura real da obra — tiveram de ser reconstruídos por indícios internos: as marcas de revisão que Chateaubriand deixou no alto de certas páginas, os cabeçalhos de lugar e data, e a extensão. O Claude errou algumas vezes. Uma dessas fronteiras teve de ser desfeita depois de o volume estar montado, porque a junção produziria um Livro de trinta e três capítulos, muito fora da medida do autor.

A terceira foi de coerência: nenhum Livro seria repartido entre dois volumes. Quando um deles atravessa a emenda de dois tomos do original — o que sucede com nove Livros —, foi atribuído por inteiro ao volume que contém a maior parte do seu texto.

Como foi feito, sem eufemismo

O uso de inteligência artificial está declarado na folha de rosto dos doze volumes, nos metadados dos arquivos, no registro da obra e no cadastro da loja. Prefiro dizê-lo na capa a deixar que alguém descubra.

Ao Claude coube verter o texto capítulo a capítulo, propor as notas de identificação, manter a coerência do vocabulário e das grafias ao longo de quase três mil páginas, e montar os volumes, os índices e o aparelho. A mim coube o que decide uma edição: a escolha da obra e do texto-base, a regra de divisão dos volumes, o exame de cada bloco, a correção das fronteiras quando o critério falhou, a recusa de soluções e a exigência de outras.

Cinquenta e três versões sucessivas de uma ficha de continuidade registraram, bloco a bloco, as decisões tomadas, as grafias fixadas e os erros cometidos — inclusive os que obrigaram a desfazer trabalho já dado por pronto. Foi esse instrumento que permitiu ao último volume falar a mesma língua do primeiro.

E o aparelho ganhou uma regra que só formulei depois de o primeiro volume já estar publicado. As notas são a única parte do livro que não tem original: tudo o mais responde a um texto francês de 1849 e pode ser conferido contra ele; as notas, não — elas falam em nome da edição. Daí o critério: dão data, identificação e referência, e sempre que recolhem uma lenda, uma acusação ou um epíteto, marcam esse conteúdo como crença e nomeiam quem a sustentou. O texto de 1849 pode dizer o que quiser, porque é documento. O aparelho, não, porque é juízo. Cinco das oitocentas e noventa e duas notas foram reescritas por essa regra.

Os barcos

Quando os doze volumes ficaram prontos, fui procurar o primeiro fragmento.

Estava no Tomo V, Livro XVIII — no capítulo em que Chateaubriand volta a Os Mártires e lhe aponta os defeitos, transcrevendo a passagem de que Fontanes mais gostava. É o canto de Cimodoceia:

Ligeiros navios da Ausônia, fendei o mar calmo e brilhante; escravos de Netuno, abandonai a vela ao sopro amoroso dos ventos, curvai-vos sobre o remo ágil. Levai-me de volta, sob a guarda do meu esposo e do meu pai, às margens afortunadas do Pamiso.

Ausônia, e não Aônia — é o nome antigo da Itália, e não a região das Musas. A memória me traíra por uma sílaba, ou me traíra o tradutor antigo de quem Albalat colheu o fragmento. As duas palavras cantam, e eu procurei durante dez anos um livro guiado por uma palavra errada. Ou por uma palavra que trouxe as Musas para dentro do verso sem pedir licença.

A fronte

Do segundo fragmento não fui à procura nas Memórias, porque sabia que não o acharia ali. Atala é outro livro, de 1801. Mas atravessa este: no primeiro capítulo do primeiro volume, Chateaubriand escreve que foi ao grande deserto de Atala que deveu o pequeno deserto de Aulnay — a casa de jardineiro da Vallée-aux-Loups, cujas árvores plantou uma a uma, trazidas dos países por onde andara errante, e sob as quais começou a escrever as Memórias.

Fui então ao próprio Atala. A frase está na segunda parte da narrativa de Chactas, Os Lavradores, na boca do eremita, o padre Aubry. E o contexto é melhor do que o fragmento solto: Chactas pergunta-lhe pela religião, e o eremita responde que Cristo não disse que o seu sangue lavaria este e não aquele — morreu pelo judeu e pelo gentio, e em todos os homens viu apenas irmãos e desgraçados. É dessa premissa que sai o soldado.

No francês de 1801, a frase diz: que soldado seria assaz covarde para recuar, quando o seu chefe, com a cruz na mão e a fronte coroada de espinhos, marcha adiante dele em socorro dos homens.

A versão que eu carreguei dez anos diz outra coisa: o Líder vergado pela cruz.

Uma palavra de diferença, e o paradoxo muda de lugar.

Em Chateaubriand ele está na coroa. Uma coroa é insígnia de realeza; feita de espinhos, é escárnio e suplício — a contradição está inteira ali, e a cruz fica livre para ser outra coisa: o estandarte na mão, a insígnia erguida que se segue ou se abandona. A frase consegue assim duas notas distintas: comando na mão, humilhação na fronte.

Na versão que me ficou, o paradoxo desce também para a cruz. O chefe não a empunha: carrega-a, e curva-se sob ela. Confesso que durante muito tempo achei isso apenas mais belo. Hoje penso que é também mais exigente. O peso lembra que aquele que vai à frente não é só Deus verdadeiro, mas homem verdadeiro — teve um corpo que cedeu, e a estrada de Jerusalém registrou o nome de quem foi obrigado a ajudá-lo. Um soldado que vê à frente um chefe intacto sempre pode alegar que ali as forças eram outras; diante de um chefe que tropeça e ainda assim avança, some a desculpa. Não era um simples soldado o que aceitou ser vergado pela cruz para salvar os homens — e é isso que torna o desertor ainda mais covarde.

E há um detalhe que fecha o círculo. O verbo com que os evangelhos dizem que constrangeram Simão Cireneu a pegar na cruz é o termo técnico da requisição imperial, o mesmo do Sermão da Montanha: "se alguém te obrigar a caminhar uma milha". É palavra de recrutamento. Simão é um transeunte alistado à força na estrada — de sorte que a via crucis já traz dentro de si um homem convocado que não recuou. A frase do padre Aubry fala de soldado e de deserção; o Calvário responde com um conscrito.

Deixo as duas versões neste texto porque acho que um leitor que veja ambas entende mais do que se visse só a exata. Uma reparte as duas naturezas entre dois emblemas. A outra não tem emblemas: põe o peso todo sobre os ombros e deixa a divindade num só fato, que é Ele continuar a andar.

Duas palavras deslocadas

Os dois fragmentos que me levaram ao livro traziam, cada um, uma palavra fora do lugar. Aônia por Ausônia. A cruz nos ombros em vez da cruz na mão.

Não foram falhas de memória. Foram interpretações que se instalaram sozinhas — e não pesam o mesmo.

A primeira trouxe as Musas para o mar. Ausônia é a Itália, nome de geografia; Aônia é a região das Musas. Trocar uma pela outra é trocar ornato por ornato, e nada se perde, porque nenhuma das duas pretendia ser verdadeira: são invenções de poeta, e o verso canta igual.

A segunda trouxe o Calvário para dentro da metáfora militar, e aí já não se trata de fábula. O que ali está eu conhecia de outro Livro, e conhecia antes de ler o visconde. Chateaubriand pôs a cruz na mão do chefe, erguida como um estandarte; a minha memória passou-a para os ombros do Senhor, o nosso Líder. O deslocamento toca no que os Evangelhos relatam — e o que eles relatam não se oferece como ficção, mas como Verdade: aquele que marchava à frente era Deus verdadeiro e homem verdadeiro, e é o peso da cruz que atesta a segunda natureza. Tanto assim que a estrada de Jerusalém guardou o nome de quem foi obrigado a ajudá-lo a carregá-la. Sem que eu soubesse, a lembrança deslocada apoiava-se num fato.

E, mesmo deslocadas, as duas apontavam para o mesmo lugar: o livro que eu não sabia ler, numa língua que não falo, e que faltava na minha desde muito antes de eu nascer.

O livro que se abre dizendo que se escreve de além-túmulo para poder falar com franqueza levou cento e setenta e seis anos para falar a nossa língua por inteiro.

Se Deus permitir estará lá — e agora em português. 

DISPONÍVEL NA AMAZON 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Um Testemunho



O testemunho está mais para o fruto do qual a gratidão é a raiz. Só testemunha sinceramente aquele que é de fato grato a Deus por tudo que dEle recebeu. E aqui incluo até as virtudes de ser grato e sincero, pois é Deus quem opera em nós tanto o querer como o realizar. Filipenses 2:13. Ninguém é bom por apenas aquilo que traz consigo - ¹⁰ Como está escrito: "Não há nenhum justo, nem um sequer; Romanos 3:10. e ⁷ ⁷ …⁷ Porque quem te diferençia? E que tens tu que não tenhas recebido?…1 Coríntios 4:7a | ARC

Que não sejamos como aqueles 9 dos 10 leprosos curados por Jesus, Nosso Senhor, que não voltaram a Ele para dar glória a Deus, mas como o unico que a Ele retornou para glorificá-LO votemos ao nosso coração para encontrá-Lo com nossa gratidão, sabendo que este é lugar que ninguém sonda, exceto o próprio Deus! O testemunho sincero é a parte visível da gratidão presente no coração daquele que crê. O homem liberto de Gadara mostrou que tinha gradidão ao pedir a Jesus para estar com Ele e apesar de não nos parecer a primeira vista,  o Senhor concede o que o homem lhe pediu, porém não da maneira que ele esperava, mas em forma de uma missão: "Vai para tua casa, para os teus, e anuncia-lhes quão grandes coisas o Senhor te fez, e como teve compaixão de ti" ... isso é de fato estár com o Senhor pois Ele mesmo promete aqueles a quem envia - ²⁰ …e eis que eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos. Amém! Mateus 28:20b | ARC

Na Bíblia de Estudos da Reforma, SBB, tradução Almeida RA, página 1692 há um artigo muito didático explicando a difenrença entre providência e milagre com base em estudo de Norma Geiser. A primeira é atividade de Deus pela qual Ele ininteruptamente preserva, sustenta, governa, dirige toda a vida. Providência é Deus agindo por meio das leis da natureza em nosso favor,  Às vezes, Ele dirige as forças da natureza para que algo incomum e maravilhoso aconteça, um exemplo que quando Deus nos liberta de uma enfermidade por meio de um tratamento médico. Já nos milagres, Deus interfere na vida humana de tal forma que a lei natural é anulada naquele momento, a fim de realizar algum propósito único e especial, uma enfermidade simplesmente desaparece de nosso organismo como se nunca tivesse existido, dela restam apenas os exames anteriores que constataram a sua existência. 

No dia 06 de novembro de 2025 eu passei em consulta com oftamolgista por conta de uma irritação nos olhos que eu julgava ser conjuntivite,  todavia fui informado que a inflamação era no pterígio, sitoma que seria facilmente tratado com colírios lubrificantes e o problema que o causa de forma mais permanente por meio de uma pequena cirurgia. Ocorre que além do pterígio, algo mais foi notado pela oftamologista. Quem trabalhou em hospitais conhece uma triste história que se repete muito. Alguém passa numa consulta de rotina e descobre algo muito grave. Pois bem, a médica notou uma mancha incomum e me encaminhou para uma oftalmo com especialidade em oncologia. Esta informação já me fez estremecer, e confesso que minha ansiedade cresceu ainda mais por conta de haver vagas apenas no início do novo ano. 

Tenho muita fé em Deus, graças a Deus, e sabemos que às vezes Deus permite certas coisas, todas elas para o nosso bem e para Sua Glória. Até o dia da consulta, continuei orando, como faço todos os dias, e pelo que me conheço, até que não fiquei tão ansioso como sempre fui.

Chegado o grande dia da consulta, uma médica realmente abençoada, que mais deveria ser cardiologista, pois sabe tratar as pessoas de uma maneria que faz bem a seus corações, todos saiam de seu consultório elogiando o atendimento. Ela ficou intrigada pois o pterígio ainda estava lá, mas não conseguia encontrar a tal mancha que a médica da primeira consulta  se referiu, e olhava de um lado, olhava de outro e não econtrava nada, por isso pediu dois exames mais precisos, duas tomografias de coerência óptica, uma em cada olho. Foram mais alguns dias de espera testando a minha ansiedade. Continuei orando, como continuo ainda e pela Graça de Deus, continuarei sempre. Feito o exame, marcado o retorno, mais uma vez a oftalmo que poderia ser cardiologista não encontrou o que procurava. Não havia nada além do pterígio. Mas ela, com um certo humor, disse que não iria me liberar assim tão facilmente e pediu que eu retornasse seis meses depois numa última consulta de avaliação, na qual eu faria a diltação nos dois olhos e ela faria uma varredura em busca de alguma mancha suspeita. Assim, foram mais seis meses, orando como sempre. 

Chegado o dia, dilatados os olhos, a médica os vasculhou como quem procura uma lente de contato caida chão, ou aquele parafusinho da haste dos óculos que por algum motivo escapa. O fato é que a mancha vista pela outra médica a cerca de um ano atrás, não estava mais lá e neste caso, não existe nem mesmo exames a constataram mas apenas o encaminhamento da oftamologia geral para a oftamologia oncológica. Como se percebesse algo incomum, e isso apenas minha impressão, a médica se despediu de mim com um abraço, mas dizendo que eu não escaparia da pequena cirurgia do pterigio. 

E por tudo  isso eu dou Glória a meu Deus por mais este livramento entre tantas outras benções que já recebi, sem nunca tê-las merecido. Porque a benignidade do Senhor é para sempre e Sua misericóridia é infinita. 

Ao orar, saibamos que Jesus, nosso Salvador, ouvirá a nossa oração. Ele responderá nossas orações. Se Ele se dispôs a sofrer toda a violência da cruz para nos oferecer aquilo que mais necessitamos - o perdão dos nossos pecados - não cuidará Ele também das nossas outras necessidades do corpo e da alma?

"E o meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, há de surprir, em Cristo Jesus, cada uma de vossas nessecidades." Fp 4.19

Louvado seja Deus, Pai, Filho, Espírito Santo, Deus seja louvado, a Deus seja toda Glória. Amém 

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

𝐀 𝐕𝐢𝐫𝐭𝐮𝐝𝐞 𝐞 𝐨 𝐕𝐢́𝐜𝐢𝐨

A virtude e o vício distinguem-se por essência de modo tão radical, e é tão necessário que essa distinção seja observada para o bem-estar dos homens, quer na vida privada, quer nas sociedades, que separá-los em si mesmos, apartá-los por sinais suficientes e distingui-los por recompensas foi o desígnio de todas as leis, das sentenças dos sábios, da ordem das coisas e da proporção que guardam com o bem ou com o mal; e conforme a isso se formaram as expectativas dos homens: para que a virtude tenha sede própria na vontade e nos afetos, e se torne amável por suas próprias excelências e pela bênção que lhe vem anexa; e para que o vício seja inimigo tão natural do homem quanto o lobo o é do cordeiro e as trevas o são da luz — destruidor do seu ser e contradição da sua natureza.

2. A insuficiência das leis humanas

Mas não basta que o mundo inteiro se tenha armado contra o vício e que, por tudo quanto há de sábio e sóbrio entre os homens, tenha tomado o partido da virtude, ornando-a de gloriosos títulos, animando-a com prêmios, acolhendo-a com doçura, ordenando-a por editos, fortificando-a com toda sorte de defensivos e entretecendo-a em todas as acomodações que a arte pôde inventar: tudo isso fica aquém da necessidade do homem. Pois isso, nos homens de algum recato, assegurará apenas as ações que se passam nos teatros e nas estradas, nos mercados e nas igrejas, sob os olhos dos juízes e na companhia de testemunhas; mas as ações dos gabinetes e das alcovas, os desígnios e os pensamentos dos homens, seus colóquios em lugares escuros, os atos do retiro e da noite — tudo isso fica indiferente à virtude ou ao vício. E dessas coisas, como o homem não pode tomar conhecimento, tampouco pode exercer coerção; e por isso mais de metade das ações humanas fica, pelas leis dos homens, sem vigilância e sem provisão.

3. A impunidade dos grandes e o clamor dos oprimidos

E, além disso, há homens que são maiores que as leis, e há os que são maiores que os juízes; e alguns juízes diminuíram-se a si mesmos pelo medo e pela covardia, pelo suborno e pela lisonja, pela iniquidade e pela complacência; e mesmo onde não se diminuíram, só de poucas causas têm notícia. Há ainda pecados tão populares e tão universais, que puni-los é ou impossível ou intolerável; e chamá-los a juízo trairia a fraqueza das varas e dos machados públicos, e faria o pecador parecer mais forte do que o poder que foi instituído para lhe servir de freio. E, depois de tudo isto, encontramos pecadores tão prósperos que escapam, tão poderosos que nada temem; e o pecado torna-se seguro quando cresce em grandeza:

—— Facere omnia sæve

Non impune licet, nisi dum facis ——

«Não se comete impunemente toda sorte de crueldades, senão enquanto se continua a cometê-las.» (Lucano, livro VIII)

E a inocência é oprimida; o pobre clama, e não tem quem o socorra; é espoliado, e falta-lhe um patrono. E por estas e por muitas outras causas concorrentes, se contardes todas as causas que se apresentam diante de todos os tribunais do mundo, ainda que as litigiosas sejam demasiado numerosas e as matérias de instância intrincadas e sem conta, tão poucas são, contudo, as pessoais e criminais, que de dois mil pecados que clamam em altas vozes a Deus por vingança, apenas dois, quando muito, são notados pelo olho público e castigados pela mão da justiça.

4. A necessidade de um dia de juízo

Segue-se daí que é apenas razoável — pelo interesse da virtude e pelas necessidades do mundo — que o que é oculto seja julgado; que a virtude seja imposta também ao espírito; que o pobre seja aliviado; que o oprimido possa apelar; que o clamor das viúvas seja ouvido; que os santos se ergam de pé; que a causa mal julgada torne a ser julgada; que os tiranos sejam chamados a contas; que os nossos pensamentos sejam examinados e as nossas ações secretas vistas por todos os lados; e que o número infinito de pecados que aqui escapam não escape afinal. E por isso Deus assim o ordenou: que haja um dia de juízo, no qual tudo aquilo que os homens deixaram passar seja interrogado por Deus, e toda palavra e toda ação receba a justa retribuição que lhe é devida.

Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba as coisas feitas no seu corpo, segundo o que houver feito, seja bem, seja mal.

Jeremy Taylor 

O Conservadorismo Sequestrado.

O conservador que nunca leu um conservador Há palavras que morrem de velhice e palavras que morrem de sucesso. Conservador está morrendo da ...