e os ligeiros barcos da Aônia
Como vim a traduzir as Memórias de Além-Túmulo (em breve na Amazon e/ou aqui em nosso blog)
Comecei por dois fragmentos mal lembrados.
Foi lendo Antoine Albalat, há uns dez anos, que encontrei Chateaubriand pela primeira vez. Albalat ensinava a escrever pela assimilação dos grandes prosadores, e punha Chateaubriand entre os primeiros — citava-o como se cita um mestre de quem não se discute a autoridade. Duas passagens me ficaram na cabeça e de lá não saíram.
A primeira:
"Ligeiros barcos da Aônia, sulcai o mar calmo e sereno, escravos de Netuno, defraldai as velas ao sopro amoroso dos ventos."
A segunda, de Atala, na tradução portuguesa que Albalat me trouxe — e que eu mesmo retoquei, trocando "chefe" por "Líder":
"E que soldado há, tão covarde, capaz de recuar, quando o Líder caminha à sua frente para salvar os homens, vergado pela cruz e com a fronte coroada de espinhos?"
Um mar calmo com barcos ao amanhecer, e um exército atrás de um Chefe ferido. Foram esses dois que me fizeram ir procurar o livro.
Dez anos de porta fechada
Não encontrei. Procurei por uma década, em sebos e catálogos, em bibliotecas e depois na internet, e mais tarde perguntei às máquinas, que também não sabiam. Havia excertos: páginas antologiadas, capítulos vertidos em teses, citações fartas na crítica. A obra é constantemente referida em português e quase nunca lida em português. O paradoxo é grande, porque o título ecoa no nosso maior romance — as Memórias Póstumas de Brás Cubas, de 1881, conversam abertamente com a ideia de um morto que escreve, e Machado conhecia bem o livro do visconde.
A razão do silêncio não é mistério. São quase três mil páginas de prosa densa, cheia de latim, de versos citados de memória, de despachos diplomáticos e de alusões que já eram eruditas em 1849. Traduzi-la por inteiro é empresa de fôlego. Ninguém a tinha feito em português, e eu entendia perfeitamente por quê.
Havia ainda um obstáculo que era só meu: eu não falo francês.
Durante dez anos, a minha situação foi a do leitor comum diante de uma porta fechada. Sabia que o livro existia, sabia que era grande, sabia que não havia tradução — e não tinha como fazer nada a respeito.
Três mil páginas do francês oitocentista são anos de trabalho para um profissional, e custam o que custa uma equipe editorial. Não era questão de vontade.
O que abriu a porta
O que abriu a porta foi o Claude, da Anthropic. Não porque tenha feito o trabalho sozinho — não fez —, mas porque tornou possível que alguém sem francês conduzisse a empresa e respondesse por ela.
A máquina verteu o texto; a mim coube decidir o que se traduzia, contra que exemplar, com que critérios, e conferir o resultado. E conferir era possível sem saber francês: os sumários dos capítulos estão impressos no original e cotejam-se um a um; as datas, os nomes e os números conferem-se contra o fac-símile da Biblioteca Nacional de França, que está livre na Gallica; e a coerência interna de quase três mil páginas mede-se em português — foi aí que apareceram quase todos os erros.
Não é pouco nem é tudo, e prefiro dizer as duas coisas. Sem essa tecnologia, esta edição não existiria: dez anos de procura frustrada são a prova. Com ela e sem o resto, também não existiria — o que se entrega a uma máquina sem método volta como um monte de páginas plausíveis.
O que se decidiu traduzir
A obra que agora existe em português tem 2.864 páginas, 536 capítulos, quarenta Livros e um Suplemento, distribuídos por doze volumes — os mesmos doze da edição original de Paris, E. e V. Penaud frères, 1849-1850, na mesma ordem e com o mesmo conteúdo.
A primeira decisão foi traduzir a primeira edição, e não as críticas modernas. Existem edições melhores — Biré, Levaillant e Moulinier, Berchet — que corrigiram o texto sobre os manuscritos e restabeleceram passagens que os editores de 1849 haviam atenuado. São as que hoje se leem em França, e são superiores como texto. Mas a de 1849 tem um valor que nenhuma delas pode ter: é o livro tal como o século XIX o leu, com os seus sumários em itálico, as suas fileiras de pontos onde o corte foi feito, e o seu Suplemento final. É o livro que chegou a Machado.
A segunda foi mais trabalhosa do que eu esperava. A edição de 1849 não imprime a divisão em Livros. Traz tomos e capítulos, e mais nada. Os Livros — que são a arquitetura real da obra — tiveram de ser reconstruídos por indícios internos: as marcas de revisão que Chateaubriand deixou no alto de certas páginas, os cabeçalhos de lugar e data, e a extensão. O Claude errou algumas vezes. Uma dessas fronteiras teve de ser desfeita depois de o volume estar montado, porque a junção produziria um Livro de trinta e três capítulos, muito fora da medida do autor.
A terceira foi de coerência: nenhum Livro seria repartido entre dois volumes. Quando um deles atravessa a emenda de dois tomos do original — o que sucede com nove Livros —, foi atribuído por inteiro ao volume que contém a maior parte do seu texto.
Como foi feito, sem eufemismo
O uso de inteligência artificial está declarado na folha de rosto dos doze volumes, nos metadados dos arquivos, no registro da obra e no cadastro da loja. Prefiro dizê-lo na capa a deixar que alguém descubra.
Ao Claude coube verter o texto capítulo a capítulo, propor as notas de identificação, manter a coerência do vocabulário e das grafias ao longo de quase três mil páginas, e montar os volumes, os índices e o aparelho. A mim coube o que decide uma edição: a escolha da obra e do texto-base, a regra de divisão dos volumes, o exame de cada bloco, a correção das fronteiras quando o critério falhou, a recusa de soluções e a exigência de outras.
Cinquenta e três versões sucessivas de uma ficha de continuidade registraram, bloco a bloco, as decisões tomadas, as grafias fixadas e os erros cometidos — inclusive os que obrigaram a desfazer trabalho já dado por pronto. Foi esse instrumento que permitiu ao último volume falar a mesma língua do primeiro.
E o aparelho ganhou uma regra que só formulei depois de o primeiro volume já estar publicado. As notas são a única parte do livro que não tem original: tudo o mais responde a um texto francês de 1849 e pode ser conferido contra ele; as notas, não — elas falam em nome da edição. Daí o critério: dão data, identificação e referência, e sempre que recolhem uma lenda, uma acusação ou um epíteto, marcam esse conteúdo como crença e nomeiam quem a sustentou. O texto de 1849 pode dizer o que quiser, porque é documento. O aparelho, não, porque é juízo. Cinco das oitocentas e noventa e duas notas foram reescritas por essa regra.
Os barcos
Quando os doze volumes ficaram prontos, fui procurar o primeiro fragmento.
Estava no Tomo V, Livro XVIII — no capítulo em que Chateaubriand volta a Os Mártires e lhe aponta os defeitos, transcrevendo a passagem de que Fontanes mais gostava. É o canto de Cimodoceia:
Ligeiros navios da Ausônia, fendei o mar calmo e brilhante; escravos de Netuno, abandonai a vela ao sopro amoroso dos ventos, curvai-vos sobre o remo ágil. Levai-me de volta, sob a guarda do meu esposo e do meu pai, às margens afortunadas do Pamiso.
Ausônia, e não Aônia — é o nome antigo da Itália, e não a região das Musas. A memória me traíra por uma sílaba, ou me traíra o tradutor antigo de quem Albalat colheu o fragmento. As duas palavras cantam, e eu procurei durante dez anos um livro guiado por uma palavra errada. Ou por uma palavra que trouxe as Musas para dentro do verso sem pedir licença.
A fronte
Do segundo fragmento não fui à procura nas Memórias, porque sabia que não o acharia ali. Atala é outro livro, de 1801. Mas atravessa este: no primeiro capítulo do primeiro volume, Chateaubriand escreve que foi ao grande deserto de Atala que deveu o pequeno deserto de Aulnay — a casa de jardineiro da Vallée-aux-Loups, cujas árvores plantou uma a uma, trazidas dos países por onde andara errante, e sob as quais começou a escrever as Memórias.
Fui então ao próprio Atala. A frase está na segunda parte da narrativa de Chactas, Os Lavradores, na boca do eremita, o padre Aubry. E o contexto é melhor do que o fragmento solto: Chactas pergunta-lhe pela religião, e o eremita responde que Cristo não disse que o seu sangue lavaria este e não aquele — morreu pelo judeu e pelo gentio, e em todos os homens viu apenas irmãos e desgraçados. É dessa premissa que sai o soldado.
No francês de 1801, a frase diz: que soldado seria assaz covarde para recuar, quando o seu chefe, com a cruz na mão e a fronte coroada de espinhos, marcha adiante dele em socorro dos homens.
A versão que eu carreguei dez anos diz outra coisa: o Líder vergado pela cruz.
Uma palavra de diferença, e o paradoxo muda de lugar.
Em Chateaubriand ele está na coroa. Uma coroa é insígnia de realeza; feita de espinhos, é escárnio e suplício — a contradição está inteira ali, e a cruz fica livre para ser outra coisa: o estandarte na mão, a insígnia erguida que se segue ou se abandona. A frase consegue assim duas notas distintas: comando na mão, humilhação na fronte.
Na versão que me ficou, o paradoxo desce para a cruz. O chefe não a empunha: carrega-a, e curva-se sob ela. Confesso que durante muito tempo achei isso apenas mais belo. Hoje penso que é também mais exigente. O peso lembra que aquele que vai à frente não é só Deus verdadeiro, mas homem verdadeiro — teve um corpo que cedeu, e a estrada de Jerusalém registrou o nome de quem foi obrigado a ajudá-lo. Um soldado que vê à frente um chefe intacto sempre pode alegar que ali as forças eram outras; diante de um chefe que tropeça e ainda assim avança, some a desculpa. Não era um simples soldado o que aceitou ser vergado pela cruz para salvar os homens — e é isso que torna o desertor ainda mais covarde.
E há um detalhe que fecha o círculo. O verbo com que os evangelhos dizem que constrangeram Simão Cireneu a pegar na cruz é o termo técnico da requisição imperial, o mesmo do Sermão da Montanha: "se alguém te obrigar a caminhar uma milha". É palavra de recrutamento. Simão é um transeunte alistado à força na estrada — de sorte que a via crucis já traz dentro de si um homem convocado que não recuou. A frase do padre Aubry fala de soldado e de deserção; o Calvário responde com um conscrito.
Deixo as duas versões neste texto porque acho que um leitor que veja ambas entende mais do que se visse só a exata. Uma reparte as duas naturezas entre dois emblemas. A outra não tem emblemas: põe o peso todo sobre os ombros e deixa a divindade num só fato, que é ele continuar a andar.
Duas palavras deslocadas
Os dois fragmentos que me levaram ao livro traziam, cada um, uma palavra fora do lugar. Aônia por Ausônia. A cruz nos ombros em vez da cruz na mão.
Não foram falhas de memória. Foram interpretações que se instalaram sozinhas — uma trouxe as Musas para o mar, a outra trouxe o Calvário para dentro da metáfora militar. E, mesmo deslocadas, as duas apontavam para o lugar certo: para um livro que eu não sabia ler, numa língua que não falo, e que durante dez anos não existia na minha.
O livro que se abre dizendo que se escreve de além-túmulo para poder falar com franqueza levou cento e setenta e seis anos para falar a nossa língua por inteiro.
Se Deus permitir estará lá — e agora em português.












